Dois leitores com interesses opostos
O relatório de diagnóstico costuma ser lido pela direção, que quer saber o que fazer, e pode ser lido, mais tarde, por alguém que procura o que a empresa sabia e não fez. O mesmo texto precisa servir aos dois. É isso que torna esse documento o mais difícil de escrever de todo o processo.
De todos os registros de um projeto, é também o que tem maior chance de ser lido por alguém de fora da empresa. Escrever sabendo disso muda as escolhas: menos adjetivo, mais dado com fonte, e uma separação clara entre o que foi medido e o que está sendo interpretado.
Método antes do resultado
Comece por instrumento, público, período, taxa de adesão e critério de classificação. Quem lê precisa poder julgar a solidez do método antes de julgar o resultado. Um relatório que abre pelo achado obriga o leitor a aceitar o número no escuro. Um relatório que abre pelo método deixa que ele decida sozinho quanto confiar, e quem decide confiar confia de verdade.
A separação entre blocos protege também quem assina. Quando o resultado está em uma seção e a interpretação em outra, alguém pode discordar da leitura sem derrubar o dado. Quando as duas coisas vêm no mesmo parágrafo, discordar de uma opinião vira discordar do diagnóstico inteiro.
- 1Identificação: empresa, período, responsável técnico e taxa de resposta.
- 2Metodologia: instrumento, público, critério de classificação.
- 3Resultados: por dimensão e por grupo, com o que mudou desde o ciclo anterior.
- 4Riscos priorizados, com grupos afetados e medidas recomendadas.
- 5Análise, limitações declaradas e plano de continuidade do acompanhamento.
O que costuma faltar e o que costuma sobrar
Falta quase sempre a lista das dimensões com bom resultado. Um relatório que só traz problema é lido como acusação, e quem se sente acusado se defende em vez de agir. Mostrar o que está funcionando também é diagnóstico, e é o que permite dizer à empresa o que ela não pode deixar piorar.
Falta também a terceira parte da conclusão. O que a empresa precisa fazer, com que urgência, e o que acontece se não fizer. Essa última não precisa ser dramática, precisa ser concreta: continuidade de afastamentos, perda de pessoas naquela área, exposição a passivo. É a parte que responde à pergunta que alguém vai fazer na reunião sobre deixar para o ano seguinte.
E sobra, com frequência, um relatório sem responsável técnico identificado. A assinatura protege os dois lados. Protege a empresa, porque demonstra que houve responsável pela condução. E protege quem assina, porque delimita o escopo: respondeu pelo diagnóstico, não pelas decisões tomadas depois.